segunda-feira, 16 de maio de 2011

Serventia



Como já não se ouve
Turbina
Como já não se olha
Pesquisa
Como já não se espera
Surdina
Como já não se fala
Mentira
Como já não se vive
Respira
Como já não amanhece
Cortina
Como já não se ama
- Nada diga -
Sem amor, sem rima.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Amistad



Não, não é o dia do amigo. É só uma declaraçãozinha para aqueles que estão sempre comigo.

Sempre fiz questão de dizer aos meus amigos que eles merecem o prêmio Nobel da Paciência, da Atenção, da Boa-vontade, e de todas as qualidades que, ao meu ver, merecem um prêmio Nobel. Se você é meu amigo, com certeza sabe do que eu estou falando.

Desde pequena, eu sempre tive uma facilidade em fazer amizades. Talvez por não me encaixar em nenhum grupo - o que me dava liberdade para passear por todos -, ou por gostar tanto de pessoas que conviver com tantas personalidades diferentes fosse algo interessante e prazeroso. Claro que esse tipo de comportamento, ao mesmo tempo que pode ser enriquecedor, também pode nos prejudicar, afinal, a gente nunca sabe o que se passa na cabeça das pessoas.

Portanto, é fato que desilusões foram frequentes não só no campo dos amores adolescentes, mas nas amizades também. Traições, puxões de tapete, admiração doentia, de tudo um pouco a gente sempre passa. Até o momento que, ou a gente se fecha pro mundo, ou passa a ter mais cuidado. Optei pela segunda alternativa.

Ainda que tenhamos todo o cuidado do mundo, se decepcionar com as pessoas será sempre uma constante em nossa vida. Somos humanos. E, nessa condição, somos feitos de erros e acertos. Nem adianta tentar escapar da regra.

Mas eis que o tempo passa, a gente cresce (e continua pequeno), aprende (e continua sem saber nada), e muitos comportamentos e necessidades mudam. Como só posso falar por mim, devo dizer que as mudanças na minha vida foram bastante significativas em relação à amizades.

Até que você se vê em um lugar diferente, com pessoas diferentes, mas, sem nenhuma explicação aparente, BUM! A afinidade acontece. Há quem tente explicar de todas as formas possíveis, mas sou simplista: afinidade acontece. E, às vezes sim, às vezes não, ela vem e traz consigo elementos em comum, dos mais diversos. Desde uma música antiga que você achava ser a única pessoa na Terra a se lembrar dela e vibra quando encontra alguém que também conhece, como expressões em comum, maneira de agir, etc. Descobrir afinidades é como achar o cofre da Rose no Titanic. E a partir daqui, pode começar uma caminhada na qual a paciência, o respeito e a boa-vontade precisam andar de mãos dadas. As duas mãos.

Então você acorda de mau humor e pronto. Já imagina ter que suportar aquela alegria matinal que te incomoda nos dias que estamos com a pá virada. Ou então, simplesmente estamos mais introspectivos e isso não precisa ser motivo de briga ou insegurança. É aqui que somos humanos. É aqui que buscamos respaldo para justificar aquele tom grosseiro que logo a força da amizade nos avisa que tudo não passou de um momento de incompatibilidade. Simples: incompatibilidade também acontece. E olha, meus amigos, ainda quando incompatíveis, merecem o Nobel por suportarem minha mudança assídua de humor.

Eles merecem porque sou confusa, impulsiva e bipolar. E todos nós temos o direito de assim sermos. E temos também o direito de agir em resposta conforme estamos acostumados. Mas a amizade está no respirar fundo, em superar aquela mania egoísta, em sentar pra conversar à respeito do que incomoda. E então a gente pensa: "Preciso mudar isso para lidar melhor com aquilo". E o "casamento" vai se adequando quando tem tudo para dar certo.

Eu queria ser como o Milton Nascimento ou o Leminski para saber falar da amizade de uma forma mais poética e, ao mesmo tempo, profunda. Mas minha forma de agradecer é ordenando (!) que eles estejam na minha vida para sempre, e que dividamos tudo de melhor que pudermos conquistar.

Porque, definitivamente, "amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito". E eu serei grata de todas as formas que eu puder, porque
"os meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam outra coisa.
Presença, olhar, lembrança, calor.
Meus amigos,
quando me dão,
deixam na minha
a sua mão."

Amo para sempre e mais um dia!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Companhia


Minhas mãos falam por mim
Afagam, saciam, ferem.
Idolatro o poder dos meus dedos
Cada um deles
Brindo a evolução
Por conceder-me polegares
Opositores
Pintores
Atores
Dedos doces
Dossiê de informações
Trabalho manual de peso
Esse de parir palavras pelos dedos
Junção de unhas e dentes
Para externar o desejo
Para enrolar nos dedos
Os segredos dos cabelos
Para segurar com força
Outras mãos que sentem medo
Sentir a pele
O pêlo
E o elo que o tato constrói
Em noites frias
Em quentes leitos
Minhas mãos sobrevivem
A todos os ensejos
Benditas mãos
Por amarem o mundo
Suportarem o toque
Oferecerem o pão
E principalmente
Por dar-me auxílio
Em conjunto com o destino
Trazendo em cada palma
As linhas que me cedem
A direção.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Batalha sangrenta
Fecha-se um vício
Abre-se um ciclo.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Ignis



Meu querido
Tão doce, tão casto
Não corra, não fuja
Não vejo razão.
Fique e observe
Aprenda, tente, ouse
Caia, levante, eu seguro
Te tiro do chão.
Tenha calma, não se apresse
Não me impeça
Não idealize, não sonhe
Não pense, não peça
Me dá a mão.
Deixa eu te levar
Eu te guio
Te protejo
Te divido, somo, multiplico
Brinco contigo
Não te esqueço.
Fique até criar suas asas
Dance até sentir cansaço
Curta até perder a cor
Eu te prometo, não dói nada
Invada essa casa vazia
Se encha de amor

Paixão

Poesia.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Vício


Te procuro,
Te seduzo,
Te embalo,
Te beijo,
Te uso,
Sumo.

Te recordo,
Te sinto a falta,
Me desculpo,
Te abraço,
Te cuido,
Sumo.

Te imagino,
Te venero,
Te espero,
Me apaixono,
Me jogo,
Sumo.

Te detesto,
Me enojo,
Te adoeço,
Te mato,
Sumo.

Te lamento,
Te enterro,
Me despeço,
Te esqueço,
Você some:
Te procuro.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Heransoteropolitanidade


Desde pequena, ouço a voz de meu pai me dizendo:
"Ai, que saudade eu tenho
Da cidade que, com a benção dos meus santos, pude nascer
Passeio pela história das minhas raízes
E sinto falta dos becos, das praças
Rememoro a boemia da noite da cidade abençoada
Me revolto lembrando das lutas e manifestações
Daquela luta pelos direitos que ajudei a conquistar
Sinto saudade da grande festa de gastronomia da minha cidade
Da rotina do dia e da noite
Das marchinhas dos Fantoches nas noites de Fevereiro
- "Hoje eu sou da maneira que você me quer..." -
Dos passeios no bondinho do Plano Inclinado
As rodas de jogos de camuflada extorsão dos senhores no Campo Grande
Ah, tantas aulas perdidas para olhar de perto as saias coloridas das moças na Piedade
Como sinto saudade da minha cidade de histórias
As docerias da Lapa que sofriam com a passagem dos meus irmãos
E como não lembrar das tantas noites etílicas
Das quais o pouco de memória restou?"

Mas a maior saudade, a saudade verdadeira
Sou eu quem sinto
É dessa cidade que não conheci
Que fere, dói, padece
É a saudade de memórias que não são minhas
Dos momentos que não vivi
Minha cidade é meu parque de diversões ilusório
Dos causos e aflições que não senti
Olho e vivo a história sem tocá-la
Viajo por fora da vida que tanto quis
Mas desejo que meu espaço não seja apenas atração turística
Que as fotos não só mostrem a paisagem das casas pintadas do meu Pelourinho
Enquanto seus becos permanecem sujos de limo e de vidas tortas
Que não conseguem se livrar de seu triste passado
Que o meu lugar não feneça ao caos provocado pela alienação dos bairros nobres
Para que eu mesma possa colocar os pés nela, sentí-la minha
E viver a nova história que possamos construir
Longe de hipocrisias.

Sei que tenho seu sangue, seu ritmo, a proteção de Todos os Santos
Obrigada pela oportunidade, meu pai e meu São Salvador.